A reforma tributária já entrou em fase de implementação, mas muitas empresas ainda não sabem quanto ela vai custar — ou quanto pode economizar.
Um levantamento divulgado pela Folha de São Paulo com 70 diretores e gestores das áreas financeira, fiscal e de tecnologia, de médias e grandes empresas, mostra que praticamente uma em cada quatro companhias ainda não simulou os impactos financeiros da reforma.
A amostra reúne empresas com receita anual somada superior a R$ 2 trilhões, o equivalente a cerca de um quinto do PIB brasileiro. O dado mostra que a incerteza não está concentrada apenas em pequenos negócios ou empresas com baixa estrutura fiscal. Ela também aparece em companhias com escala, equipe técnica e sistemas corporativos.
O problema é que 2027 está perto. A CBS começa a ser cobrada de forma efetiva, o IBS entra em fase inicial de transição e as empresas terão que operar com regras novas sem abandonar, de imediato, os tributos atuais.
A maior parte das empresas que tentou medir o impacto da reforma ainda está em uma fase inicial.
Segundo o levantamento:
Esse último ponto é decisivo. A reforma não impacta todas as operações da mesma forma. O efeito real depende de produto, serviço, fornecedor, cliente, crédito, regime tributário, local de destino, cadeia de compra e forma de pagamento.
Uma simulação apenas macro pode indicar tendência, mas não mostra onde a margem quebra, onde o crédito aparece, onde o preço sobe ou onde o caixa será pressionado.
O split payment aparece como um dos maiores pontos de incerteza.
Nesse modelo, o tributo é separado no momento da liquidação financeira da operação. Em vez de o valor total passar pelo caixa da empresa para posterior recolhimento, uma parte já é direcionada ao pagamento de IBS e CBS.
Isso muda a dinâmica financeira do negócio.
Hoje, muitas empresas usam o intervalo entre venda, recebimento e pagamento de tributos como parte do giro operacional. Com o split payment, esse dinheiro pode deixar de circular no caixa.
O levantamento mostra que:
Ou seja: 78% das empresas ou não avaliaram o impacto no caixa ou fizeram apenas uma avaliação preliminar.
Para negócios com margem apertada, ciclo longo de recebimento, estoque alto, vendas parceladas ou dependência de capital de giro, essa lacuna pode virar problema em 2027.
A reforma também deve mexer na formação de preços.
No levantamento, 34% das empresas não sabem se seus produtos ou serviços ficarão mais caros, mais baratos ou iguais em 2027.
Entre as que têm alguma estimativa:
A incerteza é compreensível. A alíquota nominal de IBS e CBS não define sozinha o preço final. O impacto depende de crédito aproveitável, fornecedores, regime do cliente, benefícios setoriais, contratos, estrutura de custos e capacidade de repasse.
Ainda assim, esperar a alíquota definitiva para revisar preço é arriscado. A empresa precisa trabalhar com cenários.
A rentabilidade é outro ponto sensível.
Segundo a sondagem:
A percepção predominante é de risco.
Isso acontece porque a reforma pode redistribuir carga entre empresas de uma mesma cadeia. Quem hoje acumula imposto pode ganhar eficiência. Quem tem pouco crédito, vende para consumidor final ou está em uma cadeia com fornecedores despreparados pode sofrer pressão.
A reforma não melhora ou piora a margem de forma automática. Ela muda a matemática da operação.
A adaptação tecnológica é um dos maiores gargalos.
Apenas 1% das empresas consultadas considera que sua área de TI já está pronta para conviver com os dois sistemas tributários durante a transição.
O restante está distribuído assim:
Esse dado é crítico porque a reforma não será executada em planilha. Ela vai depender de ERP, notas fiscais, cadastros, regras de cálculo, integração com fornecedores, validação de créditos, documentos fiscais eletrônicos, conciliação e apuração.
Entre 2026 e 2033, as empresas terão que conviver com o sistema atual e o novo sistema ao mesmo tempo. Isso exige arquitetura fiscal, não apenas atualização de layout.
A área jurídica também aparece em estágio inicial.
O levantamento mostra que:
A revisão contratual é importante porque a reforma pode alterar preço líquido, responsabilidade por tributos, repasse de custo, cláusulas de reajuste, equilíbrio econômico, condições comerciais e prazos de pagamento.
Contratos longos, fornecimentos recorrentes, serviços continuados e cadeias com margens apertadas precisam de atenção especial.
Sem cláusula clara, a discussão tributária pode virar conflito comercial.
A preparação dos fornecedores também preocupa.
Segundo o levantamento, 82% dos entrevistados avaliam que seus principais fornecedores não estão preparados ou estão pouco preparados para a reforma. Dentro desse grupo, 56% classificam os fornecedores como pouco preparados e 26% dizem que eles não estão preparados.
Esse ponto é central porque o crédito de IBS e CBS dependerá da qualidade da documentação fiscal ao longo da cadeia.
Se o fornecedor emite nota com erro, preenche campos incorretamente, classifica mal a operação ou atrasa correção, o problema pode cair no colo do comprador.
No novo modelo, a gestão fiscal deixa de ser apenas interna. A empresa precisará monitorar a maturidade fiscal da cadeia de suprimentos.
A maioria das empresas acredita que a reforma pode alterar seu posicionamento no mercado.
Os dados mostram que:
No total, 83% enxergam alguma chance de mudança competitiva.
Isso faz sentido. A reforma pode tornar alguns modelos mais eficientes e outros mais caros. Pode favorecer empresas com cadeia formalizada, bom aproveitamento de crédito, dados fiscais organizados e contratos bem ajustados. Também pode punir operações com baixa governança, fornecedor irregular ou precificação baseada em carga antiga.
A percepção geral sobre a reforma está dividida, mas pende para o risco.
Segundo o levantamento:
Ou seja: 54% têm leitura predominantemente negativa ou defensiva, enquanto 46% enxergam algum grau de oportunidade.
Essa divisão mostra que a reforma não será apenas uma obrigação de compliance. Ela pode virar vantagem competitiva para quem simular melhor, ajustar preço antes, proteger caixa e negociar contratos com dados.
O primeiro passo é sair da simulação genérica.
A empresa precisa calcular impacto por produto, serviço, fornecedor, cliente, centro de custo e contrato.
A agenda mínima inclui:
A reforma precisa sair da área tributária e entrar no orçamento.
A reforma tributária não vai impactar apenas o valor do imposto. Ela vai mudar o tempo do caixa, a lógica do crédito, a formação de preço, a relação com fornecedores, os contratos e a competitividade.
O dado mais relevante não é apenas que parte das empresas ainda não simulou a reforma. É que muitas das que simularam ainda fizeram isso de forma superficial.
Em 2027, a CBS começa a ser cobrada. Até lá, empresas que ainda não sabem o impacto no preço, na margem, no caixa e nos sistemas estarão operando no escuro.
A vantagem não estará em esperar a regra perfeita. Estará em testar cenários, organizar dados e transformar a reforma em decisão de gestão antes que ela vire custo na operação.

