A Câmara dos Deputados concluiu a segunda etapa da regulamentação da Reforma Tributária do consumo, avançando na implementação do novo modelo de impostos criado pela Emenda Constitucional nº 132/2023. Como o texto já havia sido aprovado pelo Senado, o projeto segue agora para sanção presidencial.
A votação consolida pilares centrais do novo sistema tributário brasileiro: padronização, centralização de decisões, redução de exceções e fortalecimento do controle fiscal, com efeitos diretos sobre a rotina operacional das empresas a partir de 2026.
Um dos pontos mais debatidos foi o Imposto Seletivo (IS), conhecido como “imposto do pecado”, que incidirá sobre produtos considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente.
A Câmara derrubou o teto de 2% para bebidas açucaradas, como refrigerantes, limite que havia sido incluído pelo Senado após pressão do setor produtivo. A retirada do teto foi aprovada por 242 votos a 221.
O que isso significa na prática
- As alíquotas do Imposto Seletivo ainda serão definidas por lei específica do Executivo.
- A ausência de teto cria espaço para tributação mais elevada no futuro.
- O risco tributário passa a depender não apenas da legislação, mas também de decisões regulatórias e políticas públicas.
O Imposto Seletivo começará a valer de forma gradual a partir de 2027.
O projeto cria oficialmente o Comitê Gestor do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), responsável pela administração da parcela do imposto que caberá a estados e municípios.
O órgão será composto por representantes indicados por governadores e prefeitos e terá poder para:
- editar normas infralegais,
- uniformizar interpretações,
- operacionalizar o novo sistema.
Impacto para as empresas
Na prática, o Comitê Gestor se torna o principal polo de interpretação do IBS, reduzindo disputas locais, mas também limitando margens de interpretação individual por parte dos contribuintes.
Embora o IBS e a CBS não sejam cobrados em 2026, o próximo ano será decisivo para as empresas.
A partir de janeiro:
- as empresas deverão emitir documentos fiscais no novo padrão;
- todas as operações alimentarão bases de dados do governo;
- os sistemas serão usados para validar cadastros, processos e fluxos.
Atenção
Erros em 2026 não geram multa imediata, mas constroem histórico fiscal, que poderá embasar autuações a partir de 2027.
Entre os destaques aprovados, a Câmara retomou pontos que haviam sido alterados no Senado:
SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol)
- Alíquota reduzida de 8,5% para 5%, mantendo regime mais favorável ao setor.
Medicamentos e tratamentos
- A isenção deixa de ser baseada em lista fechada de remédios.
- Passa a considerar a finalidade terapêutica, permitindo atualização mais rápida.
- A definição caberá ao Ministério da Saúde, com aval da Fazenda e do Comitê Gestor do IBS.
O texto cria a Câmara Nacional de Integração do Contencioso Administrativo do IBS e da CBS, com o objetivo de harmonizar decisões entre União, estados e municípios.
Quando houver divergência:
- o Comitê de Harmonização será acionado;
- o Fórum de Harmonização emitirá parecer jurídico.
Para as empresas, isso tende a gerar mais previsibilidade, mas reduz estratégias baseadas em conflitos interpretativos entre entes federados.
A Câmara manteve:
- a tributação monofásica da nafta, tanto no ICMS atual quanto no IBS e CBS, como medida de combate à sonegação.
Por outro lado, foi retirada:
- a emissão unificada de documentos fiscais para empresas de serviços que atuam em vários municípios.
Segundo o relator, a unificação inviabilizaria a operacionalização do cashback tributário por CPF.
A aprovação dessa fase deixa claro que a Reforma Tributária vai além da substituição de impostos. O novo sistema foi desenhado para:
- centralizar dados fiscais,
- eliminar zonas cinzentas,
- tornar créditos verificáveis,
- vincular o imposto ao processo operacional da empresa.
Empresas que antes dependiam de interpretação passam a depender de processo, tecnologia e governança fiscal.
Tratar 2026 como um “ano neutro” pode ser um erro estratégico. A adaptação começa agora — e quem atrasar pode entrar em 2027 com riscos já consolidados.
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