ICMS sobre compras internacionais sobe para 20% em 10 estados

Guilherme Souza 
em 01/04/2025

A partir de 1º de abril de 2025, consumidores e empresas de dez estados brasileiros enfrentam mudanças significativas nas regras tributárias para compras em sites estrangeiros. A alíquota do ICMS no Regime de Tributação Simplificada subiu de 17% para 20%, afetando plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. A medida, aprovada pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), busca equilibrar a concorrência entre varejistas locais e gigantes globais, mas traz implicações complexas para diferentes atores econômicos.

Adesão imediata (Abril/2025)

10 estados já aplicam a alíquota de 20%:

  • Minas Gerais (maior economia do grupo)
  • Acre e Amapá (Norte)
  • Sete estados do Nordeste: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe

Exceções no Nordeste: Maranhão e Pernambuco mantêm temporariamente 17%, mas podem editar decreto para elevar a alíquota, já que suas leis permitem taxas acima de 20%.

Processo de implementação

A mudança exigiu:

  1. Aprovação em dezembro de 2024 pelo Comsefaz, seguindo acordo nacional.
  2. Respeito à “noventena” (90 dias entre publicação e vigência), conforme Lei Complementar nº 24/1975.

Estados com decisão pendente

  • Via decreto: Rio de Janeiro, Tocantins, Maranhão, Pernambuco e DF podem aumentar o ICMS por decreto, pois suas legislações já autorizam alíquotas ≥20%.
  • Via legislativa: 12 estados, incluindo São Paulo, dependem de projetos de lei nas Assembleias Legislativas. Em SP, por exemplo, a alíquota modal limita o ICMS a 18% para importações.

Prazo para adesão futura: qualquer estado que aprove o aumento em 2025 só poderá implementá-lo em janeiro de 2026, devido ao princípio da anualidade tributária (Art. 150, III, b da Constituição).

Entendendo o cálculo do ICMS e o impacto financeiro

Como o tributo é cobrado

O ICMS incide sobre o valor total da compra, incluindo:

  • Preço do produto
  • Frete e seguro
  • Imposto de Importação (II) federal (cobrado “sobre imposto”)

Fórmula de cálculo: ICMS=(Valor do produto + frete + seguro + II)×Alıˊquota estadualICMS=(Valor do produto + frete + seguro + II)×Alıˊquota estadual

Cenários práticos para o consumidor

Valor da CompraII FederalICMS (20%)Carga Tributária Total
US$ 50 (R$ 300)20% (R$ 60)R$ 7244% (R$ 132)
US$ 500 (R$ 3.000)60% – US$ 20R$ 67268% (R$ 2.052)

Impacto direto:

  • Itens até US$ 50: principal faixa de consumo para roupas e eletrônicos, com aumento de 3 p.p. no ICMS.
  • Compras acima de US$ 50: II salta para 60%, mas com desconto de US$ 20. O ICMS continua sobre o valor total, incluindo o II.

Razões e consequências da mudança tributária

Contexto histórico

  • 2023: estados unificaram ICMS em 17% para compras internacionais, alinhado ao programa Remessa Conforme.
  • 2024: pressão do varejo nacional levou à revisão da alíquota para 20%, visando isonomia competitiva.

Objetivos declarados

  1. Proteção do mercado interno: equilibrar condições entre e-commerce global e empresas locais.
  2. Aumento da arrecadação: estados projetam ganhos de até R$ 2,1 bilhões/ano (FGV).

Efeitos colaterais

  • Para consumidores:
    • Redução do poder de compra em categorias como moda e eletrônicos.
    • Risco de migração para marketplaces nacionais, como Mercado Livre.
  • Para empresas:
    • Importadores: custos adicionais de 8-12% em insumos (Amobitec).
    • Varejo físico: projeção de crescimento de 10-15% em vendas (Abvtex).

Estratégias de Adaptação

Mecanismos de Implementação por Estado

EstadoAlíquota AtualMecanismo para AumentoStatus
Minas Gerais20%ImplementadoVigente desde 01/04/2025
São Paulo18%Projeto de Lei (Alesp)Discussão em andamento
Rio de Janeiro16% + 1% FECPDecreto governamentalEstudos técnicos
Distrito Federal17%Decreto governamentalAnálise de impacto

Estratégias para empresas

  1. Compensação de créditos tributários:
    • Uso de créditos de ICMS acumulados em operações interestaduais (ex.: RN negociou R$ 18 milhões em descontos com fornecedores).
  2. Redesenho de cadeias de suprimentos:
    • Substituição de fornecedores asiáticos por alternativas do Mercosul (25% das empresas de Manaus já adotaram).
  3. Modelos híbridos de precificação:
    • Absorção parcial de custos + valor agregado (ex.: garantias estendidas em Recife).

Recomendações para consumidores

  • Verificar a alíquota estadual antes de comprar (ex.: MG 20% vs. SP 18%).
  • Calcular preço final com a fórmula: Prec¸o Total=(Valor do produto + frete + seguro + II)×(1+ICMS)Prec¸o Total=(Valor do produto + frete + seguro + II)×(1+ICMS)
  • Monitorar assembleias legislativas para decisões pendentes (ex.: Alerj no RJ debate projeto em setembro/2025).

Tendências para 2025-2026

Pressões em Curso

  • Uniformização tributária: Abvtex pressiona por 20% em todos os estados até 2026.
  • Fragmentação logística: SP atrai centros de distribuição com alíquotas menores (+12% demanda em galpões).

Projeções econômicas

IndicadorEstimativaFonte
Custo adicional para empresasR$ 4,2 bi/anoFGV
Ganho do varejo físicoR$ 9 bi/anoAbvtex
Inflação setorial1,2% (eletrônicos)Ibre/FGV

Riscos e oportunidades

  • Risco de guerra fiscal: DF estuda redução de ISS para atrair plataformas globais.
  • Oportunidade tecnológica: Startups desenvolvem apps de cálculo tributário em tempo real (ex.: “Tax+”, baixado 500 mil vezes em março/2025).

Equilíbrio Frágil entre Interesses

O aumento do ICMS reflete um dilema global: como proteger indústrias locais sem asfixiar o consumo? Enquanto estados buscam recursos para serviços públicos, consumidores e empresas enfrentam custos crescentes. Aos gestores, cabe monitorar efeitos colaterais como a inflação de importados; aos cidadãos, exige-se maior educação fiscal. Aos que souberem navegar neste novo mapa tributário, restarão não só desafios, mas oportunidades únicas de reinvenção.

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