A Receita Federal aposta que a reforma tributária do consumo, com a entrada efetiva de CBS e IBS em 2027, vai atacar uma dor antiga do sistema: o uso de créditos tributários falsos ou “frios” para compensar tributos e reduzir artificialmente a arrecadação.
O motivo é estrutural. No modelo atual, especialmente em PIS/Cofins, o crédito é um território de disputa: depende de conceitos (insumo, essencialidade, regimes cumulativo/não cumulativo), exceções e interpretações que variam. Isso abre espaço tanto para litígio legítimo quanto para abusos.
Segundo apuração do Valor Econômico, a Receita invalidou R$ 49 bilhões em créditos em 2025, e parte desse volume estaria ligada a créditos “sem respaldo legal”, vendidos por consultorias como solução para abater tributos, inclusive contribuições previdenciárias. Fonte: Valor Econômico.
O modelo atual de PIS/Cofins é um terreno fértil para distorção porque:
Na prática, a Receita aponta padrões típicos: crédito ligado a atividade econômica incompatível, documento de arrecadação inexistente, ou estruturação que não se sustenta na regra do regime aplicado.
A reforma pretende reduzir essas brechas com uma mecânica mais linear. O novo modelo se apoia em três pilares:
A lógica é: se houve tributação na etapa anterior, há crédito na etapa seguinte. Isso reduz o debate sobre “o que pode” e “o que não pode” creditar, o que hoje é a principal fábrica de divergência.
O crédito tende a espelhar o tributo efetivamente pago na etapa anterior. Isso reduz a assimetria típica do modelo atual, em que o comprador às vezes tenta creditar mais do que o fornecedor recolheu.
Esse é o ponto que mais interessa ao governo: o crédito deixa de ser apenas “destacado” e passa a estar conectado à existência de pagamento/lastro. Na visão da Receita, isso diminui muito a chance de crédito inexistente.
Quando você junta essas três peças, o sistema fica mais simples de auditar e, ao mesmo tempo, cria um argumento para acelerar devoluções: se todo crédito tem lastro financeiro, o risco de devolver “crédito fantasma” cai.
É aqui que o mercado ficou nervoso — e onde surgem promessas de “use tudo agora”.
Muitas empresas estão revisando saldos e estratégias de compensação porque temem ficar com crédito “encalhado” na transição. Esse medo aumentou com a atuação de consultorias que vendem urgência como produto.
Mas o próprio desenho da reforma prevê uma janela para a migração: há previsão de prazo para utilizar créditos de PIS/Cofins para abater CBS, o que reduz o risco de “perder” crédito de um dia para o outro. Fonte: Valor Econômico.
O contencioso tende a migrar: sai parte da briga sobre “definição de insumo” e entra a briga sobre “cadeia e dados” (pagamento anterior, rastreabilidade, conciliação).
Quem tiver governança de dados e cadeia limpa tende a recuperar crédito com menos ruído. Quem operar com cadastro falho e fornecedores desorganizados pode sofrer glosa e atraso.
Se hoje já há invalidações bilionárias, a tendência é que o custo reputacional e financeiro de usar crédito sem lastro aumente com a integração e automatização do novo sistema.

