As empresas estão se adaptando ao fim da escala 6×1 por caminhos diferentes, inclusive dentro do mesmo setor. RD Saúde, Supernosso e Supermercados Pague Menos passaram ou testam a 5×2 mantendo 44 horas. Palácio Tangará, Gurumê e Verdemar reduziram a carga semanal e reforçaram equipes. Chiquinho Sorvetes avalia abrir mais tarde, o Giraffas aposta em autoatendimento e o Copacabana Palace fez a transição por etapas. Nenhum desses casos prova que a mudança se paga em qualquer empresa: eles mostram escolhas que cada negócio precisa simular com os próprios números.
Em resumo
- Três decisões: mudar a escala mantendo 44 horas, reduzir a carga semanal e encurtar o funcionamento têm efeitos diferentes no caixa.
- 12 casos: de franquias de alimentação a hotéis de luxo e mineração, com estágios que vão de avaliação a teste encerrado.
- 5×2 não é 40 horas: distribuir 44 horas em cinco dias não resolve, sozinho, a passagem para 40 horas em 16/12/2027.
- Horário menor: o ganho líquido é gasto evitado menos margem das vendas definitivamente perdidas menos novos custos.
- Cinco caminhos: ampliar equipe, encurtar horário, mudar o processo, reter pessoas e implantar por etapas.
- Limite da evidência: os casos são relatos à imprensa, sem auditoria, e incluem um teste abandonado.
Quais decisões as empresas estão tomando diante do fim da 6×1?
Antes de calcular quanto custa repor horas, a empresa precisa decidir quais horários e serviços quer preservar. Os casos mostram três decisões que não podem ser confundidas:
- Mudar a escala mantendo 44 horas: redistribui dias e folgas, mas não reduz a carga. Deixa pendente a etapa de 40 horas.
- Reduzir a carga semanal: exige repor horas, provar produtividade ou mudar o serviço. É aqui que surge o custo da cobertura.
- Encurtar o funcionamento: muda a receita e o custo de cada faixa horária, não o limite da jornada.
Pela EC 141/2026, o limite cai para 42 horas com dois dias de repouso a partir de 16/12/2026 e para 40 horas a partir de 16/12/2027. Os detalhes estão no guia sobre o fim da escala 6×1.
Como cada empresa está se adaptando?
A tabela resume 12 casos publicados pela imprensa até 19/10/2026. Estágio e resultados seguem as reportagens. Os exemplos não formam amostra representativa nem atestam a conformidade jurídica de nenhuma escala.
| Empresa | Setor | Escala | Carga semanal | Estágio |
|---|---|---|---|---|
| Chiquinho Sorvetes | Alimentação | Equipes fixas e rotativas | Não divulgada | Em avaliação |
| RD Saúde | Varejo farmacêutico | 5×2 | 44 h mantidas | Adotado |
| Supernosso | Supermercados | 5×2 | 44 h mantidas | Piloto |
| Supermercados Pague Menos | Varejo alimentar | 5×2 com 8h48 por dia | 44 h mantidas | Em unidades |
| Giraffas | Restaurantes | Arranjos por loja | Não divulgada | Em expansão |
| Milky Moo | Alimentação | 12×36 em cerca de 80% das lojas | Não divulgada | Modelo anterior |
| Gurumê | Restaurantes | 5×2 | Cerca de 38 h | Teste |
| Verdemar | Supermercados | Alternada | Reduzida | Implantado |
| Palácio Tangará | Hotelaria de luxo | 5×2 | 42 h | Implantado |
| Copacabana Palace | Hotelaria de luxo | 5×2 por área | Preservada | Em transição |
| AngloGold Ashanti | Mineração | 4×4 nas minas | Não divulgada | Implantado |
| Grupo Bah | Restaurantes e hotelaria | Menos dias | 44 h mantidas | Encerrado |
Varejo e supermercados
Segundo a Folha, a RD Saúde adotou a 5×2 com 44 horas e cogita encurtar o horário de algumas lojas. O sindicato SINFAR/SP contestou a forma da mudança, posição sindical e não decisão judicial. De acordo com o BHAZ, o Supernosso testa desde março de 2026 escalas montadas com inteligência artificial e fecha uma a duas horas mais cedo em algumas unidades, e a empresa diz ter mantido as vendas. A Folha relatou que o Supermercados Pague Menos, rede paulista que não tem relação com a rede de farmácias, reduziu ou suprimiu o domingo em unidades em teste e diz ver menos faltas. Já o Verdemar, segundo o Estado de Minas, negociou com o sindicato uma escala alternada com carga menor e ampliou o quadro em 15% a 20%, conforme a função.
Restaurantes e alimentação
Em entrevista à Folha, o CEO da Chiquinho Sorvetes, Isaias Bernardes, disse avaliar abrir mais tarde e preservar o período de maior movimento, que começa às 14h. À Exame, o CEO do Giraffas, Carlos Guerra, contou que parte do preparo passa à indústria, que o autoatendimento deve chegar a toda a rede até o fim de 2026 e que cada loja simula sua própria escala. Também à Exame, o fundador da Milky Moo, Lohran Soares, disse que a maior parte das lojas já opera em 12×36, modelo anterior à mudança legal. Segundo a Folha, o Gurumê converteu cinco de dez unidades para cerca de 38 horas e relata 30% menos rotatividade. O contraponto é o Grupo Bah: a Folha informou que o teste com menos dias e 44 horas foi abandonado por jornadas diárias longas e gorjeta individual menor.
Hotelaria e mineração
Segundo a Panrotas e a Folha, o Palácio Tangará passou de 44 para 42 horas em 5×2, com 27 contratações e cerca de R$ 2 milhões por ano previstos. O Copacabana Palace, de acordo com a Folha e a Exame, começou em maio de 2025 uma transição por departamento, aproveitando a ocupação menor durante obras. À Exame, a AngloGold Ashanti relatou escala 4×4 nas minas e quatro dias no escritório, junto com investimentos em tecnologia.
O que dizem especialistas e entidades setoriais?
Em entrevista à Exame, o consultor de varejo Lásaro do Carmo Junior defendeu comparar o custo de contratar com as vendas perdidas ao fechar mais cedo, e revisar despesas e fornecedores. Segundo o UOL, José Velloso, da Abimaq, citou banco de horas no curto prazo e automação no longo, e a Anahp, dos hospitais privados, defendeu negociar modelos de jornada sem prejudicar o atendimento. Banco de horas não elimina custo, e automação exige gasto antes da economia. As duas visões sobre horário, abrir menos ou contratar mais, podem ser compatíveis em lojas com demanda diferente.
Reduzir o horário de funcionamento compensa?
Depende de uma conta simples: ganho líquido = gastos efetivamente evitados − margem das vendas definitivamente perdidas − novos custos da mudança. Três cuidados:
- Vendas transferidas não são perdidas: o cliente que passa a comprar em outro horário continua gerando margem.
- Gastos que ficam não são economia: aluguel e contratos fixos continuam.
- A folha não cai na mesma proporção: fechar uma hora antes não reduz salários se o quadro se mantém. O ganho costuma vir de uma contratação evitada ou de menos horas extras.
Exemplo hipotético: uma loja fecha uma hora mais cedo. Evita uma contratação, horas extras e energia, somando R$ 6,5 mil por mês. A última hora vendia R$ 40 mil por mês, com margem de contribuição de 30%. Se 60% dessas compras migrarem para outro horário, a venda perdida é de R$ 16 mil e a margem perdida, de R$ 4,8 mil. Com R$ 500 de novos custos, o ganho líquido é de R$ 1,2 mil por mês. Se nada migrar, a margem perdida sobe para R$ 12 mil e a mudança dá prejuízo de R$ 6 mil por mês. A diferença está toda na premissa de migração, que precisa ser medida.
Quais caminhos simular e o que cada um muda na conta?
| Caminho | Exemplos | O que precisa entrar na conta |
|---|---|---|
| Preservar o atendimento e ampliar a equipe | Verdemar, Palácio Tangará | Admissão, treinamento, salários e encargos, com a data do primeiro desembolso |
| Encurtar o funcionamento | Chiquinho, Supernosso, Pague Menos | Vendas perdidas, vendas transferidas, despesas evitadas e obrigações de horário |
| Reduzir tarefas ou mudar a execução | Giraffas, AngloGold Ashanti | Investimento, fornecedores, manutenção e economia comprovada depois da mudança |
| Compensar com menor rotatividade e faltas | Gurumê, relatos do varejo | Reposições, horas extras e treinamentos evitados, sem contar a mesma economia duas vezes |
| Implantar por etapas | Copacabana Palace | Desembolsos por fase e reforço quando a operação voltar ao volume normal |
O orçamento não deve partir de um aumento uniforme da folha, e sim da comparação entre essas alternativas. Para estimar o custo de cada uma, veja quanto custa reduzir a jornada de 44 para 40 horas e quais setores são mais afetados.
O que o CFO deve pedir antes de copiar o exemplo de outra empresa?
- Vendas por faixa horária, por loja ou unidade.
- Margem de contribuição de cada faixa, depois de taxas e comissões.
- Presença mínima por função e por horário.
- Horas extras atuais e o limite permitido pela convenção coletiva.
- Custo completo de uma contratação, incluindo treinamento.
- Datas dos desembolsos e do ganho esperado, mês a mês.
Na retenção, separe a queda de desligamentos de outras mudanças do período. No horário menor, verifique se a compra foi perdida ou transferida. Na contratação, confira se o novo quadro cabe no preço atual ou depende de reajuste, e quando esse reajuste vira dinheiro. O post sobre capital de giro na nova jornada mostra por que esse prazo importa. Antes de mudar escalas, valide convenção, enquadramento e contratos com apoio jurídico.
O que os casos provam e o que não provam?
- Documentado: empresas consideram ou executam respostas diferentes. Os casos não medem a frequência de cada uma no mercado.
- Possível: encurtar horários, contratar, reduzir rotatividade e automatizar podem ajudar. Valores e percentuais citados não são médias setoriais.
- Não sustentado: a ideia de que a redução de jornada se paga em qualquer empresa. Os modelos e resultados variam, e há um teste abandonado.
A conclusão prática é definir a operação que será sustentada, comparar alternativas viáveis e calcular como financiar a adaptação. Um roteiro para isso está em projeção de caixa para a nova jornada e a Reforma.
Perguntas frequentes
Quais empresas já adotaram a escala 5×2?
Segundo reportagens publicadas até outubro de 2026, RD Saúde, Supernosso, Supermercados Pague Menos, Palácio Tangará e Copacabana Palace adotaram ou testam a 5×2. Gurumê e Verdemar também reduziram a carga semanal, e o Grupo Bah encerrou seu teste.
Passar para a 5×2 resolve o fim da escala 6×1?
Não por completo. Distribuir 44 horas em cinco dias atende à mudança de descanso, mas a carga máxima cai para 42 horas em 16/12/2026 e para 40 horas em 16/12/2027, o que exige outra decisão sobre horas.
Reduzir o horário de funcionamento diminui a folha?
Não na mesma proporção, porque salários e quadro costumam continuar iguais. O ganho vem de contratações evitadas, menos horas extras e despesas variáveis menores, descontada a margem das vendas definitivamente perdidas.
Como calcular se vale a pena fechar mais cedo?
Some os gastos efetivamente evitados, subtraia a margem das vendas definitivamente perdidas e os novos custos da mudança. Vendas que apenas migram para outro horário não entram como perda.
A menor rotatividade compensa o custo da jornada menor?
Pode compensar parte do custo, como relatam Gurumê e Pague Menos. Mas os números são informados pelas empresas, sem auditoria, e a economia precisa ser medida em reposições, horas extras e treinamentos evitados.
Posso copiar a escala de outra empresa do meu setor?
Não é recomendável copiar sem análise. A escala depende da convenção coletiva, do enquadramento e da demanda por horário de cada unidade, e o efeito financeiro precisa ser calculado com os dados da própria empresa.
Por que o Grupo Bah desistiu do teste?
Segundo a Folha, o teste concentrava 44 horas em menos dias e foi encerrado por dificuldades operacionais e insatisfação, com jornadas diárias mais longas e gorjeta individual menor. O caso não prova que 40 horas fracassam, mas mostra que os ganhos não são garantidos.
Próximo passo
O exemplo de outra empresa ajuda a enxergar opções, mas não diz quanto a sua vai gastar nem quando vai receber. Para ver a conta completa, com o caso mês a mês, a análise de sensibilidade e o roteiro para a reunião da diretoria, baixe grátis o relatório O caixa entre a nova escala e o novo preço. E, se quiser medir o efeito da nova jornada e da Reforma Tributária nos números da sua empresa, peça uma simulação de impacto a um especialista da Assertif.
Fontes principais
- CEO do Giraffas sobre o fim da escala 6×1: a escala tradicional já representava um desafio, Exame
- Milky Moo tem 600 lojas fora da escala 6×1, Exame
- É melhor pagar mais funcionários do que fechar a loja, diz Lásaro do Carmo sobre fim da escala 6×1, Exame
- A empresa mais antiga do Brasil aposta na escala 4×3, Exame
- Copacabana Palace cria escala 5×2 para cerca de 600 funcionários, Exame
