Reforma Tributária 20 out 2026 · 11 min · leitura

Setores mais afetados pelo fim da escala 6×1: o que dizem Ipea, CNI e os dados de emprego

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Guilherme Souza
20 out 2026
Cozinheiro trabalhando em cozinha profissional de restaurante, um dos setores mais afetados pelo fim da escala 6x1

Os setores mais afetados pelo fim da escala 6×1 são os que precisam de gente presente em horário fixo, gastam a maior parte do orçamento com pessoal e demoram para repassar o custo ao preço. Pelo estudo do Ipea, vigilância, locação de mão de obra e serviços para edifícios lideram o aumento estimado das despesas, com até 6,65%. Pelos dados de emprego, 29,9% dos vínculos formais estavam em 6×1 em dezembro de 2025, e mais da metade no transporte aéreo e no alojamento. Nenhum desses números diz quanto dinheiro uma empresa específica vai precisar: isso depende da margem, da escala real e do prazo para receber pelo novo preço.

Em resumo

  • Datas: pela EC 141/2026, 42 horas e dois dias de repouso a partir de 16/12/2026; 40 horas a partir de 16/12/2027.
  • Ipea: aumento estimado das despesas de 0,41% no atacado a 6,65% em vigilância.
  • Escala 6×1: 14,8 milhões de vínculos formais (29,9%) em dezembro de 2025, segundo a 4intelligence.
  • CNI: de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano em cenários de reposição. Estimativa condicionada, não perda de PIB.
  • Valor não é vulnerabilidade: pesa mais a combinação de presença obrigatória, peso da folha e prazo de recomposição comercial.
  • Exemplo hipotético: numa prestadora de serviços por postos, as 40 horas consomem 105% do EBITDA inicial. Numa indústria, 17%.

Por que o maior custo em reais não aponta o setor mais vulnerável?

O mesmo gasto adicional pode ser absorvido por uma empresa com margem e reserva e comprometer outra que depende do recebimento do mês para pagar salários. A pergunta certa não é quem vai gastar mais, e sim quem tem menos espaço para absorver. Três fatores ajudam:

  • Presença obrigatória: postos que precisam estar ocupados em horário definido, como portaria, caixa ou plantão.
  • Peso de pessoal: quanto da despesa total vai para salários e encargos.
  • Prazo de recomposição comercial: quanto tempo leva para o reajuste ser negociado, faturado e pago.

Essa ordem orienta a investigação. Não é uma classificação estatística de perdas. Para as regras e datas, veja o guia sobre o fim da escala 6×1 e a EC 141/2026.

Quais atividades sentem mais o fim da 6×1, segundo o Ipea?

A Nota Técnica Disoc 123 do Ipea cruzou a RAIS de 2023 com pesquisas setoriais do IBGE. Com salário mantido e menos horas, o custo de cada hora sobe. Onde o pessoal pesa mais nas despesas, o aumento estimado é maior. Segundo a imprensa que repercutiu a nota, o custo médio do trabalho celetista subiria 7,84% com 40 horas. A tabela traz 18 atividades das tabelas 4 e 5 da nota.

AtividadePessoal sobre despesas totaisAumento estimado das despesas totais
Vigilância e segurança78,22%6,65%
Seleção e locação de pessoal81,47%6,30%
Edifícios e paisagismo75,29%5,97%
Correio e entregas48,19%4,30%
Escritório e apoio administrativo60,67%4,08%
Serviços especializados de construção43,45%4,05%
Alojamento39,11%3,53%
Agropecuária32,65%3,14%
Obras de infraestrutura30,56%2,90%
Alimentação32,55%2,80%
Construção de edifícios25,53%2,44%
Confecção24,23%2,32%
Transporte terrestre25,20%2,21%
Educação47,53%2,12%
Tecnologia da informação40,26%1,37%
Comércio varejista11,24%1,04%
Fabricação de alimentos7,81%0,74%
Comércio atacadista4,48%0,41%

O que a tabela do Ipea não mostra

Os percentuais são estimativas de despesa com dados anteriores à mudança. Não são perda de receita, de margem ou de caixa. Também não revelam a escala real: trabalhar 44 horas não significa trabalhar seis dias, limitação que a própria nota reconhece.

E 1% das despesas não é 1% do resultado. Se as despesas de uma empresa hipotética somam 96% da receita, um aumento de 1,04% nelas equivale a cerca de 1% da receita. Uma margem de 4% cairia para perto de 3%. Por isso o varejo, com percentual baixo na tabela, ainda pode sentir bastante.

Quantos trabalhadores estão na escala 6×1 no Brasil?

Segundo análise do economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, com dados do Ministério do Trabalho divulgada pela Folha de S.Paulo em 16/10/2026, eram 14,8 milhões de vínculos formais em 6×1 em dezembro de 2025, ou 29,9% do total. A fatia chegava a 53,2% no transporte aéreo e a 52% no alojamento. Um levantamento do próprio ministério com dados do eSocial chegou a 33,2%, com outra base de vínculos.

Por que 29,9% não serve para multiplicar a folha

  • Vínculos não são pessoas: uma pessoa pode ter mais de um vínculo.
  • A 5×2 também é afetada: uma equipe em 5×2 com 44 horas também terá de passar a 40.
  • Não é estimativa de contratação: o dado mede exposição, não quanto a empresa vai gastar.

O Ipea mede onde o pessoal pesa nas despesas. A 4intelligence mede quantos vínculos dependem da redistribuição dos descansos. São objetos diferentes.

Quanto a CNI estima que a redução da jornada vai custar?

Em 23/02/2026, a CNI divulgou uma faixa de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano de aumento de custos com a passagem para 40 horas, em cenários que repõem as horas por contratação ou horas extras. A entidade fala em até 7% da folha.

É uma estimativa condicionada às premissas de uma parte do debate. Mede o custo de repor horas, não o efeito líquido depois de preços, produtividade e demanda, nem perda de PIB. Na empresa, a comparação útil é entre alternativas permitidas: hora extra não é reposição ilimitada. Para fazer a sua conta, veja quanto custa reduzir a jornada de 44 para 40 horas.

Semana de trabalho menor paga a própria conta?

O estudo de Fan, Schor, Kelly e Gu, publicado em 2025 na Nature Human Behaviour, acompanhou 2.896 empregados de 141 organizações em seis países e encontrou melhora no bem-estar. Esse ganho tem valor próprio, mas bem-estar não é caixa. Menos faltas e desligamentos podem compensar parte do custo, desde que medidos na empresa e convertidos em despesas evitadas.

O que pressiona cada setor e o que a empresa deve medir?

SetorO que pressionaO que medirDecisão prioritária
Serviços por postos (limpeza, vigilância, portaria)Posto ocupado em horário definidoEscala por contrato e data do reajusteNegociar quando a recomposição será paga
Restaurantes, bares e padariasHorários fracos e cheiosCusto por faixa horáriaComparar custo e contribuição de cada faixa
SupermercadosFunções que não cabem numa médiaEscala nos picos e antes da aberturaVer se a margem absorve antes de subir preço
Varejo não alimentarHorário do shopping e vendas parceladasRecebíveis livresConfrontar folha por loja e recebíveis
Hospitais e clínicasEquipes com regras diferentesJornada por equipe e prazo dos pagadoresCalcular por equipe e por pagador
HotelariaPostos fixos com baixa ocupaçãoReservas líquidasTestar o mês de menor caixa
LogísticaPessoas e ativos juntosRotas, turnos e janelasMedir o prazo até o cliente pagar
IndústriaProcesso contínuoEquipe por linha e paradasAprovar automação pelo fluxo completo
Construção civilExecuta antes de medir e receberEtapas, retenções e mediçõesCalcular o fôlego até a próxima medição paga
AgropecuáriaManejo contínuo e safraPermanentes, sazonais e terceirosFinanciar o ciclo até a venda
TeleatendimentoDescansos e picosProcura por intervaloRecalcular o contrato pela restrição real
Tecnologia, escritórios e educaçãoEfeitos indiretosAtendimento estendido e prestadoresTestar a hipótese de baixa exposição

Em redes, a convenção coletiva, a oferta local de profissionais e o deslocamento entre lojas mudam a conta de cada unidade. Para ver como empresas desses setores estão reagindo, leia como as empresas estão se adaptando ao fim da 6×1.

Como o mesmo aumento afeta empresas diferentes?

Veja um exemplo hipotético com seis empresas, em valores mensais. Todas mantêm receita e salário e repõem as horas da parcela afetada, sem ganho de produtividade. Passar de 44 para 40 horas com o mesmo salário encarece a hora em 10% (44 dividido por 40). As parcelas afetadas foram escolhidas para a simulação e não são médias setoriais. Não há reajuste nem efeito tributário.

Empresa hipotéticaReceitaPessoal (afetado)AcréscimoMargem EBITDAEBITDA consumido
Serviços por postosR$ 1 milhãoR$ 700 mil (90%)R$ 63 mil6,0% para −0,3%105%
RestauranteR$ 300 milR$ 90 mil (90%)R$ 8,1 mil8,0% para 5,3%33,75%
HospitalR$ 3 milhõesR$ 1,35 milhão (40%)R$ 54 mil6,0% para 4,2%30%
LogísticaR$ 1,5 milhãoR$ 450 mil (80%)R$ 36 mil8,0% para 5,6%30%
SupermercadoR$ 2 milhõesR$ 200 mil (90%)R$ 18 mil4,0% para 3,1%22,5%
IndústriaR$ 2 milhõesR$ 400 mil (85%)R$ 34 mil10,0% para 8,3%17%

O hospital gasta R$ 54 mil a mais e preserva 70% do EBITDA. A prestadora gasta R$ 63 mil e fica no negativo, porque tinha R$ 60 mil de EBITDA. O supermercado gasta só 0,9% da receita a mais, mas perde 22,5% do resultado.

Mesmo um reajuste suficiente pode chegar tarde: a folha maior começa antes do primeiro recebimento com o novo preço. Veja o post sobre capital de giro na nova jornada. E salários não geram crédito de IBS e CBS, como explica o texto sobre folha de pagamento e crédito.

O que fazer agora na sua empresa?

  1. Liste as equipes por escala real e jornada contratada.
  2. Marque os postos que exigem presença em horário fixo.
  3. Calcule o peso do pessoal afetado sobre o EBITDA de cada unidade.
  4. Simule as duas etapas: 42 horas em 16/12/2026 e 40 horas em 16/12/2027.
  5. Mapeie, contrato a contrato, quando o reajuste será faturado e recebido.
  6. Confira convenção coletiva, enquadramento sindical e contratos com apoio jurídico antes de mudar escalas.

Perguntas frequentes

Quais setores serão mais afetados pelo fim da escala 6×1?

Os que exigem presença em horário fixo e têm a folha como maior despesa, como vigilância, limpeza, locação de mão de obra, restaurantes, supermercados, hotelaria e hospitais. Pelo Ipea, vigilância lidera o aumento estimado das despesas, com 6,65%.

Quantos trabalhadores estão na escala 6×1 no Brasil?

Segundo a 4intelligence, com dados do Ministério do Trabalho divulgados pela Folha, eram 14,8 milhões de vínculos formais em dezembro de 2025, ou 29,9% do total. No transporte aéreo a fatia era de 53,2% e no alojamento, de 52%.

O que diz o estudo do Ipea sobre a redução da jornada?

A Nota Técnica Disoc 123 estima aumentos das despesas totais de 0,41% no comércio atacadista a 6,65% em vigilância e segurança, conforme o peso do pessoal. São estimativas de despesa, não perdas de receita ou de caixa.

Quanto a CNI estima que vai custar a jornada de 40 horas?

A CNI calculou de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano, em cenários que repõem as horas com contratações ou horas extras. O valor depende das premissas da entidade e não mede perda de PIB.

Posso multiplicar minha folha por 29,9% para estimar o custo?

Não. O percentual conta vínculos em 6×1, não pessoas nem custo, e equipes em 5×2 com 44 horas também serão afetadas. A estimativa precisa partir das escalas reais de cada equipe.

Por que o maior custo em reais não indica a empresa mais vulnerável?

Porque pesa o custo novo em relação à margem, à presença obrigatória e ao prazo de repasse. No exemplo hipotético, o hospital gasta R$ 54 mil a mais e preserva 70% do EBITDA, enquanto a prestadora de serviços por postos gasta R$ 63 mil e perde todo o resultado.

A semana de trabalho menor aumenta a produtividade?

O estudo de Fan, Schor, Kelly e Gu, de 2025, encontrou melhora no bem-estar de 2.896 empregados em seis países. Isso não mede a produtividade de uma empresa brasileira, que precisa ser comprovada com dados da própria operação.

Próximo passo

Saber que o seu setor está entre os mais expostos é só o começo. O que importa é quanto caixa a operação precisa até receber pelo novo preço, com a nova jornada e a Reforma Tributária na mesma conta. Para ver a conta completa, com o caso mês a mês, a análise de sensibilidade e o roteiro para a reunião da diretoria, baixe grátis o relatório O caixa entre a nova escala e o novo preço. E, se quiser medir o efeito da nova jornada e da Reforma Tributária nos números da sua empresa, peça uma simulação de impacto a um especialista da Assertif.

Fontes principais

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