Os setores mais afetados pelo fim da escala 6×1 são os que precisam de gente presente em horário fixo, gastam a maior parte do orçamento com pessoal e demoram para repassar o custo ao preço. Pelo estudo do Ipea, vigilância, locação de mão de obra e serviços para edifícios lideram o aumento estimado das despesas, com até 6,65%. Pelos dados de emprego, 29,9% dos vínculos formais estavam em 6×1 em dezembro de 2025, e mais da metade no transporte aéreo e no alojamento. Nenhum desses números diz quanto dinheiro uma empresa específica vai precisar: isso depende da margem, da escala real e do prazo para receber pelo novo preço.
Em resumo
- Datas: pela EC 141/2026, 42 horas e dois dias de repouso a partir de 16/12/2026; 40 horas a partir de 16/12/2027.
- Ipea: aumento estimado das despesas de 0,41% no atacado a 6,65% em vigilância.
- Escala 6×1: 14,8 milhões de vínculos formais (29,9%) em dezembro de 2025, segundo a 4intelligence.
- CNI: de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano em cenários de reposição. Estimativa condicionada, não perda de PIB.
- Valor não é vulnerabilidade: pesa mais a combinação de presença obrigatória, peso da folha e prazo de recomposição comercial.
- Exemplo hipotético: numa prestadora de serviços por postos, as 40 horas consomem 105% do EBITDA inicial. Numa indústria, 17%.
Por que o maior custo em reais não aponta o setor mais vulnerável?
O mesmo gasto adicional pode ser absorvido por uma empresa com margem e reserva e comprometer outra que depende do recebimento do mês para pagar salários. A pergunta certa não é quem vai gastar mais, e sim quem tem menos espaço para absorver. Três fatores ajudam:
- Presença obrigatória: postos que precisam estar ocupados em horário definido, como portaria, caixa ou plantão.
- Peso de pessoal: quanto da despesa total vai para salários e encargos.
- Prazo de recomposição comercial: quanto tempo leva para o reajuste ser negociado, faturado e pago.
Essa ordem orienta a investigação. Não é uma classificação estatística de perdas. Para as regras e datas, veja o guia sobre o fim da escala 6×1 e a EC 141/2026.
Quais atividades sentem mais o fim da 6×1, segundo o Ipea?
A Nota Técnica Disoc 123 do Ipea cruzou a RAIS de 2023 com pesquisas setoriais do IBGE. Com salário mantido e menos horas, o custo de cada hora sobe. Onde o pessoal pesa mais nas despesas, o aumento estimado é maior. Segundo a imprensa que repercutiu a nota, o custo médio do trabalho celetista subiria 7,84% com 40 horas. A tabela traz 18 atividades das tabelas 4 e 5 da nota.
| Atividade | Pessoal sobre despesas totais | Aumento estimado das despesas totais |
|---|---|---|
| Vigilância e segurança | 78,22% | 6,65% |
| Seleção e locação de pessoal | 81,47% | 6,30% |
| Edifícios e paisagismo | 75,29% | 5,97% |
| Correio e entregas | 48,19% | 4,30% |
| Escritório e apoio administrativo | 60,67% | 4,08% |
| Serviços especializados de construção | 43,45% | 4,05% |
| Alojamento | 39,11% | 3,53% |
| Agropecuária | 32,65% | 3,14% |
| Obras de infraestrutura | 30,56% | 2,90% |
| Alimentação | 32,55% | 2,80% |
| Construção de edifícios | 25,53% | 2,44% |
| Confecção | 24,23% | 2,32% |
| Transporte terrestre | 25,20% | 2,21% |
| Educação | 47,53% | 2,12% |
| Tecnologia da informação | 40,26% | 1,37% |
| Comércio varejista | 11,24% | 1,04% |
| Fabricação de alimentos | 7,81% | 0,74% |
| Comércio atacadista | 4,48% | 0,41% |
O que a tabela do Ipea não mostra
Os percentuais são estimativas de despesa com dados anteriores à mudança. Não são perda de receita, de margem ou de caixa. Também não revelam a escala real: trabalhar 44 horas não significa trabalhar seis dias, limitação que a própria nota reconhece.
E 1% das despesas não é 1% do resultado. Se as despesas de uma empresa hipotética somam 96% da receita, um aumento de 1,04% nelas equivale a cerca de 1% da receita. Uma margem de 4% cairia para perto de 3%. Por isso o varejo, com percentual baixo na tabela, ainda pode sentir bastante.
Quantos trabalhadores estão na escala 6×1 no Brasil?
Segundo análise do economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, com dados do Ministério do Trabalho divulgada pela Folha de S.Paulo em 16/10/2026, eram 14,8 milhões de vínculos formais em 6×1 em dezembro de 2025, ou 29,9% do total. A fatia chegava a 53,2% no transporte aéreo e a 52% no alojamento. Um levantamento do próprio ministério com dados do eSocial chegou a 33,2%, com outra base de vínculos.
Por que 29,9% não serve para multiplicar a folha
- Vínculos não são pessoas: uma pessoa pode ter mais de um vínculo.
- A 5×2 também é afetada: uma equipe em 5×2 com 44 horas também terá de passar a 40.
- Não é estimativa de contratação: o dado mede exposição, não quanto a empresa vai gastar.
O Ipea mede onde o pessoal pesa nas despesas. A 4intelligence mede quantos vínculos dependem da redistribuição dos descansos. São objetos diferentes.
Quanto a CNI estima que a redução da jornada vai custar?
Em 23/02/2026, a CNI divulgou uma faixa de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano de aumento de custos com a passagem para 40 horas, em cenários que repõem as horas por contratação ou horas extras. A entidade fala em até 7% da folha.
É uma estimativa condicionada às premissas de uma parte do debate. Mede o custo de repor horas, não o efeito líquido depois de preços, produtividade e demanda, nem perda de PIB. Na empresa, a comparação útil é entre alternativas permitidas: hora extra não é reposição ilimitada. Para fazer a sua conta, veja quanto custa reduzir a jornada de 44 para 40 horas.
Semana de trabalho menor paga a própria conta?
O estudo de Fan, Schor, Kelly e Gu, publicado em 2025 na Nature Human Behaviour, acompanhou 2.896 empregados de 141 organizações em seis países e encontrou melhora no bem-estar. Esse ganho tem valor próprio, mas bem-estar não é caixa. Menos faltas e desligamentos podem compensar parte do custo, desde que medidos na empresa e convertidos em despesas evitadas.
O que pressiona cada setor e o que a empresa deve medir?
| Setor | O que pressiona | O que medir | Decisão prioritária |
|---|---|---|---|
| Serviços por postos (limpeza, vigilância, portaria) | Posto ocupado em horário definido | Escala por contrato e data do reajuste | Negociar quando a recomposição será paga |
| Restaurantes, bares e padarias | Horários fracos e cheios | Custo por faixa horária | Comparar custo e contribuição de cada faixa |
| Supermercados | Funções que não cabem numa média | Escala nos picos e antes da abertura | Ver se a margem absorve antes de subir preço |
| Varejo não alimentar | Horário do shopping e vendas parceladas | Recebíveis livres | Confrontar folha por loja e recebíveis |
| Hospitais e clínicas | Equipes com regras diferentes | Jornada por equipe e prazo dos pagadores | Calcular por equipe e por pagador |
| Hotelaria | Postos fixos com baixa ocupação | Reservas líquidas | Testar o mês de menor caixa |
| Logística | Pessoas e ativos juntos | Rotas, turnos e janelas | Medir o prazo até o cliente pagar |
| Indústria | Processo contínuo | Equipe por linha e paradas | Aprovar automação pelo fluxo completo |
| Construção civil | Executa antes de medir e receber | Etapas, retenções e medições | Calcular o fôlego até a próxima medição paga |
| Agropecuária | Manejo contínuo e safra | Permanentes, sazonais e terceiros | Financiar o ciclo até a venda |
| Teleatendimento | Descansos e picos | Procura por intervalo | Recalcular o contrato pela restrição real |
| Tecnologia, escritórios e educação | Efeitos indiretos | Atendimento estendido e prestadores | Testar a hipótese de baixa exposição |
Em redes, a convenção coletiva, a oferta local de profissionais e o deslocamento entre lojas mudam a conta de cada unidade. Para ver como empresas desses setores estão reagindo, leia como as empresas estão se adaptando ao fim da 6×1.
Como o mesmo aumento afeta empresas diferentes?
Veja um exemplo hipotético com seis empresas, em valores mensais. Todas mantêm receita e salário e repõem as horas da parcela afetada, sem ganho de produtividade. Passar de 44 para 40 horas com o mesmo salário encarece a hora em 10% (44 dividido por 40). As parcelas afetadas foram escolhidas para a simulação e não são médias setoriais. Não há reajuste nem efeito tributário.
| Empresa hipotética | Receita | Pessoal (afetado) | Acréscimo | Margem EBITDA | EBITDA consumido |
|---|---|---|---|---|---|
| Serviços por postos | R$ 1 milhão | R$ 700 mil (90%) | R$ 63 mil | 6,0% para −0,3% | 105% |
| Restaurante | R$ 300 mil | R$ 90 mil (90%) | R$ 8,1 mil | 8,0% para 5,3% | 33,75% |
| Hospital | R$ 3 milhões | R$ 1,35 milhão (40%) | R$ 54 mil | 6,0% para 4,2% | 30% |
| Logística | R$ 1,5 milhão | R$ 450 mil (80%) | R$ 36 mil | 8,0% para 5,6% | 30% |
| Supermercado | R$ 2 milhões | R$ 200 mil (90%) | R$ 18 mil | 4,0% para 3,1% | 22,5% |
| Indústria | R$ 2 milhões | R$ 400 mil (85%) | R$ 34 mil | 10,0% para 8,3% | 17% |
O hospital gasta R$ 54 mil a mais e preserva 70% do EBITDA. A prestadora gasta R$ 63 mil e fica no negativo, porque tinha R$ 60 mil de EBITDA. O supermercado gasta só 0,9% da receita a mais, mas perde 22,5% do resultado.
Mesmo um reajuste suficiente pode chegar tarde: a folha maior começa antes do primeiro recebimento com o novo preço. Veja o post sobre capital de giro na nova jornada. E salários não geram crédito de IBS e CBS, como explica o texto sobre folha de pagamento e crédito.
O que fazer agora na sua empresa?
- Liste as equipes por escala real e jornada contratada.
- Marque os postos que exigem presença em horário fixo.
- Calcule o peso do pessoal afetado sobre o EBITDA de cada unidade.
- Simule as duas etapas: 42 horas em 16/12/2026 e 40 horas em 16/12/2027.
- Mapeie, contrato a contrato, quando o reajuste será faturado e recebido.
- Confira convenção coletiva, enquadramento sindical e contratos com apoio jurídico antes de mudar escalas.
Perguntas frequentes
Quais setores serão mais afetados pelo fim da escala 6×1?
Os que exigem presença em horário fixo e têm a folha como maior despesa, como vigilância, limpeza, locação de mão de obra, restaurantes, supermercados, hotelaria e hospitais. Pelo Ipea, vigilância lidera o aumento estimado das despesas, com 6,65%.
Quantos trabalhadores estão na escala 6×1 no Brasil?
Segundo a 4intelligence, com dados do Ministério do Trabalho divulgados pela Folha, eram 14,8 milhões de vínculos formais em dezembro de 2025, ou 29,9% do total. No transporte aéreo a fatia era de 53,2% e no alojamento, de 52%.
O que diz o estudo do Ipea sobre a redução da jornada?
A Nota Técnica Disoc 123 estima aumentos das despesas totais de 0,41% no comércio atacadista a 6,65% em vigilância e segurança, conforme o peso do pessoal. São estimativas de despesa, não perdas de receita ou de caixa.
Quanto a CNI estima que vai custar a jornada de 40 horas?
A CNI calculou de R$ 178,2 bilhões a R$ 267,2 bilhões por ano, em cenários que repõem as horas com contratações ou horas extras. O valor depende das premissas da entidade e não mede perda de PIB.
Posso multiplicar minha folha por 29,9% para estimar o custo?
Não. O percentual conta vínculos em 6×1, não pessoas nem custo, e equipes em 5×2 com 44 horas também serão afetadas. A estimativa precisa partir das escalas reais de cada equipe.
Por que o maior custo em reais não indica a empresa mais vulnerável?
Porque pesa o custo novo em relação à margem, à presença obrigatória e ao prazo de repasse. No exemplo hipotético, o hospital gasta R$ 54 mil a mais e preserva 70% do EBITDA, enquanto a prestadora de serviços por postos gasta R$ 63 mil e perde todo o resultado.
A semana de trabalho menor aumenta a produtividade?
O estudo de Fan, Schor, Kelly e Gu, de 2025, encontrou melhora no bem-estar de 2.896 empregados em seis países. Isso não mede a produtividade de uma empresa brasileira, que precisa ser comprovada com dados da própria operação.
Próximo passo
Saber que o seu setor está entre os mais expostos é só o começo. O que importa é quanto caixa a operação precisa até receber pelo novo preço, com a nova jornada e a Reforma Tributária na mesma conta. Para ver a conta completa, com o caso mês a mês, a análise de sensibilidade e o roteiro para a reunião da diretoria, baixe grátis o relatório O caixa entre a nova escala e o novo preço. E, se quiser medir o efeito da nova jornada e da Reforma Tributária nos números da sua empresa, peça uma simulação de impacto a um especialista da Assertif.
Fontes principais
- Mudanças na jornada e na escala de trabalho: elementos empíricos para o debate (Nota Técnica Disoc 123), Ipea
- Fim da escala 6 X 1 elevaria custo do trabalho em 7,84%, diz Ipea, Poder360
- 3 em cada 10 empregos formais têm escala 6×1 no Brasil, diz estudo, Folhapress (republicado pelo Mais Goiás)
- Redução da jornada de trabalho pode aumentar custo empresarial em até R$ 267 bilhões ao ano, Agência de Notícias da Indústria (CNI)
- Work time reduction via a 4-day workweek finds improvements in workers’ well-being, Nature Human Behaviour
