Notícias 20 out 2026 · 11 min · leitura

O presidente eleito pode adiar ou revogar a Reforma Tributária? O que depende do Congresso

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Guilherme Souza
20 out 2026
Torres do Congresso Nacional com a bandeira do Brasil, onde uma PEC para adiar a Reforma Tributária precisaria ser aprovada

Não sozinho. O presidente eleito em 25/10/2026 não pode revogar nem adiar a Reforma Tributária por decisão própria, porque as regras centrais estão na Constituição (EC 132/2023) e em leis complementares (LC 214/2025 e LC 227/2026). Adiar a CBS exigiria uma PEC aprovada por 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa. E há um detalhe de calendário: a CBS começa a ser cobrada em 01/01/2027, e a posse é em 05/01. Para valer antes disso, a mudança teria de ser votada pelo Congresso atual, entre o 2º turno e o fim de dezembro.

Em resumo

  • Quatro dias: a CBS é cobrada a partir de 01/01/2027, e o presidente eleito toma posse em 05/01, data fixada pela EC 111/2021.
  • PEC: adiar ou suspender a CBS e o IBS exige emenda à Constituição, com 3/5 de cada Casa em dois turnos: 308 deputados e 49 senadores.
  • Lei complementar: mudar exceções, regimes e regras da LC 214, como o split payment, exige 257 deputados e 41 senadores.
  • Janela curta: desde 1988, oito emendas foram promulgadas entre um 2º turno e o fim de dezembro, e todas já tramitavam antes da eleição.
  • Nenhum bloco tem 308: na Câmara eleita, a direita soma 303 cadeiras pela classificação de O Tempo e Folha. No Senado de 2027, o PL terá 28 dos 49 votos de uma PEC.
  • Estados e municípios: o IBS é administrado pelo Comitê Gestor (CGIBS), com 54 integrantes, que a União não altera sozinha.
  • Alíquota de 2027: o TCU tem até 30/10 para enviar o cálculo da CBS, e o Senado, até 15/12 para fixá-la.

Por que a CBS começa antes da posse do presidente eleito?

Por duas regras que já estão em vigor. A LC 214/2025 marca para 01/01/2027 a cobrança integral da CBS, que substitui o PIS e a Cofins. A EC 111/2021 transferiu a posse presidencial de 1º para 5 de janeiro a partir das eleições de 2026. O novo Congresso só toma posse em 01/02/2027.

Na prática, quem vencer assume com a CBS já em cobrança e com a alíquota de 2027 já definida pelo Senado. O calendário completo está no texto do 2º turno à posse: o calendário da Reforma.

  • 25/10/2026: 2º turno.
  • 30/10/2026: prazo do TCU para enviar ao Senado o cálculo da alíquota da CBS de 2027.
  • 15/12/2026: prazo para o Senado fixar a alíquota da CBS de 2027. Se não fixar, valem provisoriamente os valores calculados pelo TCU.
  • 01/01/2027: CBS cobrada; PIS e Cofins deixam de existir.
  • 05/01/2027: posse do presidente eleito.
  • 01/02/2027: posse do novo Congresso.

O cálculo da alíquota pelo TCU está detalhado em CBS 2027: TCU começa o cálculo da alíquota.

Quantos votos são necessários para mudar cada parte da reforma?

Depende de onde a regra está escrita. O que está na Constituição só muda por PEC. O que está em lei complementar muda por outra lei complementar. O que é operacional fica com a Receita Federal e o Comitê Gestor.

MudançaInstrumentoVotos mínimosObservação
Adiar ou suspender CBS e IBSPEC, em dois turnos em cada Casa308 deputados e 49 senadores (3/5)Para valer antes de 01/01/2027, teria de ser votada pelo Congresso atual
Mudar exceções, regimes e regras da LC 214Lei complementar257 deputados e 41 senadores (maioria absoluta)O que está fixado na Constituição exige PEC
Regulamentação operacionalAtos da Receita e do Comitê GestorSem votação no CongressoPrazos, leiautes e sistemas; multas só por lei
Alíquotas do Imposto SeletivoLei, MP ou PECMaioria simples; 3/5 se for PECProposta prevista para depois do 2º turno; por MP, a noventena adia a cobrança

O quórum da PEC está no art. 60, § 2º, da Constituição: a proposta é votada em dois turnos em cada Casa e precisa de três quintos dos membros em ambos. Se a reforma pode ser desfeita de vez, e o que a cláusula pétrea tem a ver com isso, é o tema do texto a Reforma Tributária pode ser revogada?

O que cada proposta de campanha exigiria?

Os candidatos aparecem na ordem Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que não indica preferência. Lula (PT) propõe manter o cronograma, o que não depende de nova votação; a definição das alíquotas do Imposto Seletivo, que o governo prevê apresentar depois do 2º turno, depende de lei, MP ou PEC. A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) já defendeu suspender a reforma por um ano, o que exigiria PEC; hoje fala em revisá-la em até seis meses e em acabar com o split payment, o que exigiria mudar a LC 214 por lei complementar. A meta de IVA perto de 19% depende de cortar exceções, parte delas prevista na própria Constituição.

Dá tempo de aprovar uma PEC entre o 2º turno e dezembro?

O histórico mostra que é raro, mas não inédito. Desde 1988, oito emendas constitucionais foram promulgadas entre um 2º turno e o fim de dezembro. Todas já tramitavam antes da eleição. Nas buscas feitas até 20/10/2026, não foi localizada notícia de PEC apresentada para adiar a CBS.

Em 20/05/2026, o coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho, chegou a propor que uma PEC fosse negociada nesse intervalo, nos moldes da “PEC da Transição” de 2022. Depois, a campanha passou a falar em revisão em até seis meses de mandato, e a economista Daniella Marques disse em 06/10 que a revisão “não precisa iniciar a discussão constitucional inteira”. Do lado de Lula, até 20/10/2026 não foi localizada resposta direta dele à proposta de suspender ou revisar a reforma.

Como estará o Congresso que vota as mudanças?

Há dois Congressos em jogo. Até 31/01/2027, vota o atual. A partir de 01/02/2027, vota o eleito em 04/10. As contagens abaixo usam critérios distintos e servem só como referência: bancada não garante voto.

CasaComposiçãoQuórum de PECLeitura
Câmara atual (até 31/01/2027)Agrupamento ilustrativo: bloco de centro (União, PSD, PP, Republicanos, MDB, Podemos) 272, PL 98, federação PT 82, demais 61308 de 513Nenhum grupo chega a 308 sozinho
Câmara eleita (a partir de 01/02/2027)Classificação de O Tempo e Folha: direita 303, centro 86, esquerda 124. Pelo critério do Poder360: 276, 113 e 124308 de 513A direita fica 5 votos abaixo de 308. Maiores bancadas: PL 121, federação PT 88, federação União-PP 87
Senado em 2027PL 28, PT 9, MDB 8, União 6, PP 6, Republicanos 5, PSD 5, PSB 4, Novo 3, outros 749 de 81O PL, maior bancada, fica 21 votos abaixo de 49

As bancadas do Senado ainda podem mudar: três senadores disputam governos estaduais em 25/10, e suplentes podem assumir.

Qual o papel de estados e municípios no Comitê Gestor do IBS?

O IBS não é federal. Ele é arrecadado e repartido pelo Comitê Gestor do IBS (CGIBS), criado pela EC 132/2023 e regulamentado pela LC 227/2026. O Conselho Superior tem 54 integrantes: 27 representam os 26 estados e o Distrito Federal, e 27 representam os municípios. Das vagas municipais, 14 são definidas por voto igual de cada município (chapa da CNM) e 13 por voto ponderado pela população (chapa da FNP). Na composição provisória atual, os mandatos vão até 31/03/2027.

Por isso a União não altera o CGIBS sozinha. Qualquer adiamento do IBS envolve estados e municípios. André Horta, do Comsefaz, que reúne os secretários estaduais de Fazenda, disse que o adiamento “não deve prosperar”.

O que já está definido e o que ainda está em disputa?

Está definido, pela lei vigente: a CBS cobrada em 01/01/2027, antes da posse; o fim do PIS e da Cofins; a alíquota da CBS de 2027 fixada pelo Senado até 15/12/2026; o IBS administrado por estados e municípios; e a isenção do IR até R$ 5 mil, apoiada pelos dois candidatos.

Está em disputa, como proposta ou hipótese: o tamanho da lista de exceções e, com ela, a alíquota de referência, hoje estimada em 27,91% nas projeções; o split payment, que deve começar facultativo no 2º semestre de 2027, sem data para virar obrigatório; as alíquotas do Imposto Seletivo; o imposto mínimo sobre altas rendas; e a duração da transição até 2033. A discussão sobre o split está em acabar com o split payment: o que mudaria, e a do Seletivo, em MP do Imposto Seletivo depois das eleições.

Na prática, o que muda para uma venda feita em 4 de janeiro de 2027? (exemplo hipotético)

Imagine uma empresa que fatura R$ 100 mil em 04/01/2027, um dia antes da posse. Sem PEC aprovada até dezembro, essa venda já segue a regra da CBS. Com uma alíquota hipotética de CBS de 9%, apenas para ilustrar, o tributo destacado seria de R$ 9 mil, no lugar do PIS e da Cofins. A alíquota real será a fixada pelo Senado. Mesmo que o governo eleito proponha mudanças em 05/01, elas dependeriam de votação no Congresso, que só toma posse em 01/02, e das regras de anterioridade para produzir efeito.

O que as empresas devem fazer agora?

Proposta de campanha não muda a lei vigente. Planeje pelo calendário atual e trate mudanças como cenário.

  1. Mantenha sistemas, cadastros e notas fiscais prontos para a CBS em 01/01/2027.
  2. Acompanhe o envio do cálculo pelo TCU até 30/10 e a resolução do Senado até 15/12.
  3. Monitore a apresentação de qualquer PEC entre 25/10 e o recesso de dezembro; sem ela, o calendário não muda.
  4. Monte o orçamento de 2027 com um cenário base (lei vigente) e cenários alternativos para exceções, split payment e Imposto Seletivo.
  5. Revise contratos longos com cláusula de reequilíbrio por mudança tributária.
  6. Compare as propostas lado a lado no texto pilar desta série: o que propõem Lula e Flávio Bolsonaro.

Perguntas frequentes

O presidente pode revogar a Reforma Tributária por decreto?

Não. As regras centrais estão na Constituição, pela EC 132/2023, e em leis complementares. Decreto não altera Constituição nem lei complementar, então qualquer mudança depende do Congresso.

Quantos votos são necessários para adiar a Reforma Tributária?

Adiar a CBS e o IBS exige uma PEC aprovada em dois turnos em cada Casa, com três quintos dos membros. São 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores.

A CBS começa antes da posse do novo presidente?

Sim. A CBS é cobrada a partir de 01/01/2027, e a posse é em 05/01/2027, data fixada pela EC 111/2021. São quatro dias de diferença.

Quem fixa a alíquota da CBS de 2027?

O Senado, até 15/12/2026, com base no cálculo que o TCU deve enviar até 30/10/2026. Se o Senado não fixar no prazo, valem provisoriamente os valores calculados pelo TCU.

O governo federal pode mudar o Comitê Gestor do IBS sozinho?

Não. O Comitê Gestor é formado por estados e municípios, com 54 integrantes no Conselho Superior, e foi regulamentado pela LC 227/2026. Mudanças dependem de lei complementar ou PEC aprovadas pelo Congresso.

Acabar com o split payment exige PEC?

Em regra, não. O split payment está na LC 214/2025, então sua retirada exigiria lei complementar, com 257 deputados e 41 senadores. Até 20/10/2026, a campanha que defende a medida não apresentou projeto detalhado.

Já houve PEC aprovada entre o 2º turno e a posse?

Sim. Desde 1988, oito emendas constitucionais foram promulgadas entre um 2º turno e o fim de dezembro. Todas já tramitavam no Congresso antes da eleição.

Este conteúdo é informativo, descreve regras e posições públicas documentadas e não constitui recomendação de voto.

Próximo passo

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Fontes principais

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